Nesse livro de memórias Pedro J. Negreiros de Andrade registra, com franqueza e densidade histórica, as experiências de uma vida atravessada por transformações políticas, culturais e científicas do Brasil na segunda metade do século XX.
A obra inicia com uma extensa reconstrução genealógica que remonta à colonização portuguesa, com uma longa reconstrução das elites nordestinas, explorando personagens como Jerônimo de Albuquerque e Maria do Espírito Santo Arcoverde, símbolos da formação mestiça nordestina. Ao revisitar ancestrais ligados à resistência contra invasões estrangeiras o autor insere sua própria história na longa saga da construção do Brasil, refletindo sobre identidade, miscigenação e memória.
O núcleo central do livro, porém, situa-se entre os anos 1950 e 1980. Pedro Negreiros descreve sua infância em Fortaleza, a efervescência política do pré-1964, sua atuação no movimento estudantil e sua postura crítica — porém não armada — durante a ditadura militar. Autodenominando-se "não combatente", relata a experiência de uma geração que viveu entre utopias, silêncios estratégicos, repressão e esperança democrática.
Paralelamente, descreve sua formação em Medicina, a especialização em Clínica Médica e Cardiologia nos Estados Unidos e no Rio de Janeiro, o retorno a Fortaleza e sua atuação acadêmica. O livro articula constantemente política e Medicina, descrevendo personagens importantes e debatendo os problemas e contradições da esquerda. O texto também aborda a luta pela anistia, as Diretas Já e o cenário político até 1989, ano em que encerra deliberadamente a narrativa.