A pauta do aborto abre um novo horizonte ético e abala a identidade de nossa espécie e a imagem que fazemos de nós mesmos. Ainda que essa identidade e imagem variem, no acidental, entre as culturas da humanidade, com uma exceção aqui ou ali, no substancial, as doutrinas metafísicas e as tradições humanistas — assim como as grandes religiões monoteístas — também fornecem contextos em que a estrutura total de nossa experiência moral está inserida. Elas articulam, de um ou de outro modo, uma autocompreensão antropológica que se adapta a uma moral autônoma. As interpretações religiosas de si mesmo e do mundo, surgidas na época axial das grandes civilizações, convergem, de certo modo, numa metanarrativa ética mínima da espécie, que sustenta essa moral.