<p><em>Praia esgarçada alegria</em>, do jovem poeta alagoano André Santa Rosa, é um longo poema sobre pessoas desaparecidas e lugares que não existem mais. Ou talvez seja melhor dizer: sobre a memória que não se completa, como o voo de uma praia que tem forma de garça ou a história de corpos lançados de aviões no meio do mar. Nessa atmosfera, os fantasmas vagam: Mário de Andrade numa praia em Maceió, uma vítima da ditadura militar no prédio do antigo DOI-Codi, a estátua de Graciliano Ramos entre turistas, “os primeiros Caetés/ […] espalhados entre/ a ilha de Itamaracá/ e o rio São Francisco”.</p>
<p>O poeta escreve como se retirasse, de uma caixa há muito guardada, fotografias de diferentes momentos, lugares e personagens, e, de repente, elas começassem a contar uma outra história, atravessada por violência, sumiços, perdas e esperas sem fim. No jogo de sucessão e sobreposição de imagens, ecoa uma pergunta que parece (co)mover seus versos: “Em que momento a alegria silenciosamente se apaga?”.</p>
<p>Nesse sentido, o poema é também uma forma de indagação diante do vazio, do silêncio, do buraco deixado pela ausência de quem amamos (impossível não se lembrar, ao passar por estas páginas, do filme <em>Ainda estou aqui</em> e sua história de “desaparecimento forçado”), e se insurge, a seu modo, contra as distâncias intoleráveis. De um lado, pela certeza de que “o tempo é a maior distância/ entre dois lugares”. De outro, pelo desejo de saber o que separa o primeiro sorriso do sobrinho e o último sorriso da avó.</p>